CRÔNICAS

Rosas

Certo dia eu vi uma rosa em uma grande roseira. Pensei em colhê-la e presentear alguém em especial, mas pensei na rosa. E pensei no estrago que eu faria àquela roseira. Não resisti e roubei dois botões daquela planta. Um botão eu guardei em um livro. O outro chegou ao seu destino: nas mãos da mais bela jovem que já vi.
Sim! Ela gostou da surpresa! E me fez esquecer a roseira. Mas outro dia passei novamente pela roseira e mais uma surpresa a vida me deu. Não havia mais rosas. Não havia mais uma enorme roseira. Somente alguns galhos que certo jardineiro deixou.
Aquela enorme roseira foi podada. E suas rosas tão lindas quanto as que eu tirei caíram ao solo e murcharam. Mas as duas que eu colhi um dia antes estão guardadas em nossa história.
Mas e quanto à roseira?
Crescerá! Outras rosas ao mundo trará! E se alguém, assim como eu, tiver coragem para quebrar seus galhos, fará novamente dois olhos brilharem.

Grande e Pequeno Mundo

Mês passado fiz uma breve viagem à Europa. Lembro-me ter tomado café da manhã em uma pequena cafeteria italiana. Podia-se apreciar a Torre de Pisa como paisagem de fundo.
Logo depois já estava passeando pelos canais de Veneza.
Não resisti à idéia de conhecer o muro de Berlim e tomar uma bela cerveja alemã, o que acompanhou meu almoço.
Decidi visitar a Torre Eiffel pela tarde. Depois fui até Barcelona conhecer touros e toureiros.
A noite uma indecisão: jantar em Madri ou em Lisboa?
Foi quando ouvi minha mãe me chamar. Marquei a página, fechei o livro e jantei no Brasil.

Paciência

Sábado, nove horas da manhã. Alguém tocou o interfone. Levantou-se ele, espreguiçando-se e abrindo a boca em um bocejo.
- Pois não?
- Olha o gás!
- Que gás?
- Ora bolas! Gás! Gás!
- Hã?
- Moço! Vo-cê-quer-com-prar-gás?
- Gás? Não obrigado! O meu tá cheio!
Voltou ele para a cama resmungando por ter sido acordado sem propósito.

...Sábado, nove horas da manhã. Alguém tocou o interfone. Levantou-se ele, espreguiçando-se e abrindo a boca em um bocejo.
- Pois não?
- Ainda tá cheio?
- Cheio? Cheio o que?
- O gás? Tá cheio?
- Ah! O gás! Sim, está cheio! Ei! Você quer parar de me acordar todos os sábados a essa hora? – silêncio – Ei! Moço? Você ainda está aí? Moçooooo? Sumiu o bastardo.

...Sábado, nove horas da manhã. Alguém tocou o interfone. Levantou-se ele, em um pulo, e saiu correndo para atendê-lo.
- Ainda tá cheio! E pára de me acordar todo Sábado a essa hora que eu tô ficando de saco cheio com essa história. E não precisa vir perguntar se tá cheio! Quando ficar vazio eu vou comprar outro. Tá bom?
Uma voz tímida e num tom bem baixo responde:
- Isso são modos de se receber as visitas meu filho? Eu só vim pra te dizer “Feliz Aniversário”.
- Mãe! É você? Desculpa, é que...
- Abra a porta!
- Abriu?
- Sim!
Uma hora depois. Alguém tocou o interfone. Pediu licença a sua mãe para atendê-lo.
- Pois não?
- Às dez horas pode?
- Pode o que?
- Se às dez horas pode perguntar se tem gás?

Tempo Perdido

A vida corria atrás do futuro, e o relógio apressava os passos do fugitivo.

O sucesso do minuto seguinte pedia uma explicação ao passado. Que se recusava em delatar o responsável.

Dormi e acordei! A perseguição continuava. E a cada minuto que passava, a disputa ficava cada vez mais concorrida.

Foi quando parei pra pensar, e para cada pensamento, ouvia-se um tic-tac do cronômetro.

Uma idéia surgiu! Então tirei da ampulheta uma das pilhas. Mas não obtive resultado.

Colei os ponteiros de um dos meus dígitos. Novamente não houve resultado.

Desenhei um relógio solar. Em vão foi mais uma tentativa.

Pintei o 7!

O relógio parou. O presente o acompanhou. O futuro fugiu. A vida passou. E eu nem percebi.

Valores X Valores

Certo dia, uma cena não tão difícil de assistir nas calçadas das cidades me chamou atenção.
Mãe e filha passeavam de mãos dadas, até que a garotinha literalmente “empacou” e com voz ativa pedia à mãe que voltasse alguns passos. Mas a mãe não estava disposta a “obedecer” o pedido da menina que puxava a mão da mãe com força para o sentido oposto.
Sentei-me em um banco próximo ao palco formado pela dupla de atrizes que protagonizavam a cena e tranqüilo deleitei-me em assistir aquele diálogo.
- Manheeeee! Volta aquiiiii!
- Anda guria! Eu ainda tenho que ir ao dentista!
- Manheeeee! Vooooooooltaaaaaaaa!
E o diálogo se estendeu por alguns minutos com falas repetitivas vindas dos dois lados. Até que aquela que deveria controlar a situação, e não o faz, é controlada por uma estátua com o estereótipo de criança “emburrada”: braços cruzados e “beiço grudado no chão”.
- O que você quer minha filhinha? Pergunta como se não soubesse a resposta.
O sorriso da criança é igual ao de um atleta com o troféu acima da cabeça. Então a linda menininha puxa a mãe até a vitrine de uma loja e diz:
- Eu quero aquela blusinha, aquele cinto cor-de-rosa, aquele tamanco, aqueles brincos, aquela mini-saia e aquela bolsinha. Compra mãe?
Pronto! Mãe e filha entram na loja dispostas a “furar” a conta conjunta especial do papai e da mamãe.
Lembrei-me então do motivo pelo qual eu, quando criança, era arrastado pela mão quando passeava com minha mãe pelo centro da cidade. Ela quase nunca se deixava parar, pois sabia que iria ouvir algo assim:
- Mãe! O que tá escrito naquela placa? Re-vis-ta-ri-a-Cal-ca-dao. Calçadão né mãe?!

Cobertor de Orelhas

Eu lia mais!
Lia porque queria!
E deitava com o livro nas mãos. E me virava de um lado pro outro a cada página virada.
E dormia...
E sonhava com as páginas vividas. E vivia com os sonhos e encantos das páginas lidas.
E acordava com as marcas do livro em meu rosto.
E não levantava, sem antes encontrar o marcador de página, que se perdera em meus sonhos, por entre páginas e cobertores.

Esses Dias me Faltou Papel

Esses dias fui ao banheiro. Ler o jornal que o jornaleiro acabara de atirar contra minha porta. Ele acha que só porque é obrigado a acordar antes das seis para ir trabalhar, pode também acordar todos que desejar.
Li o jornal todinho! Li mais umas revistas que estavam no cesto de revistas. Procurei mais alguma coisa pra ler, mas não encontrei. Li as embalagens do xampu, as embalagens do condicionador, do creme anti-rugas da esposa, do gel do meu menino e todas as embalagens dos cosméticos da minha menininha. 
Procurei algo mais pra ler, mas não encontrei. Me faltou papel pra ler.
Li tudo que tinha pra ler no banheiro, e o que não precisava eu li também. Até bula de anticoncepcional, bula de remédio pra dor de barriga, bula de laxante, bula de... Ops!
Acho que tô precisando de um laxante, se não vou ter que montar uma biblioteca no banheiro.

Cão sem Dono

Fred andava sem rumo! Procurava um dono. Procurava um melhor amigo. Seguia as pessoas nas ruas. E lhes falava. E lhes pedia.

Pedia por socorro. Pedia uma oportunidade. Parecia que queria uma moeda: pedia comida!

Comia quando encontrava algo para comer. Comia quando alguém lhe dava algo para comer.

Água das poças d’água ele bebia.

E sorria! Mas vivia sem alegrias.

Fred encontrou abrigo. Debaixo da marquise de uma mercearia. Mas nem todos ali o queriam.

Alguns sentiam pena. Outros lhe pisavam nas patas.

Até que um dia, Fred foi atravessar a rua e o doutor o viu. Mas não parou. E o atropelou.

Fred morreu!

E já não comia os restos das latas. Não mais gritava pelas ruas. Não fazia gracejos. Não mais cantarolava noite adentro. Não mais se cobria com o jornal que não lia.

Pobre Frederico! Jamais encontrou sua família. Jamais pediu esmolas. Jamais voltou a ser um ser humano.

A Vida Imita a Arte

Da janela do terceiro andar eu observava a namorada, que discutia com o namorado.
Ela, nervosa, acusava-o de alguma coisa.
Ele, calmo, inerte, mãos escondidas atrás das costas.
Parei pra assistir o episódio que não tardou em mostrar-me um final feliz.
Chora ela. E recebe o abraço dele. Repentinamente surge uma rosa. Um sorriso! E um beijo!
Fechei a janela, desliguei a solitária televisão, e fui dormir pensando em você.

Antes, estava livre. Agora, sentada no piso do banheiro de um apartamento de hotel. A índia Guajá, que ficou famosa ao ser fotografada segurando seu bebê e ao mesmo tempo amamentando um “porco do mato”, fechou a porta do banheiro sem querer.

Impaciente, agressiva por natureza, agora sem palavras e inerte. Seu corpo pequeno e frágil diante da tecnologia que como inimigo lhe flechava a alma.

A natureza lhe dava a mão para explorar a seu antigo habitat. Mas ao tocar a parede do banheiro faz a chuva nascer. Ligara por acidente o dispositivo que aciona o chuveiro. Sua pele queimada pelo sol é manchada pela pintura que se desfaz ao contato com a água.

Depois de algumas horas em silêncio, assustou-se com o arrombar da porta. Pele pálida, olhos esbugalhados, mãos trêmulas que dizem: - “Quero, simplesmente, ser quem eu nasci pra ser”.

Pés Descalços no Chão

Colar não é o Bastante

A professora trouxe as revistas e, o aluno, o papel em branco. Ele deveria recortar alguma “figurinha” e montar um “desenhinho”.
Segurando a tesoura em uma das mãos, folheava as revistas em busca de uma inspiração.
“Dezenas de revistas depois...”
- Professora! Eu posso desenhar uma árvore?
- Mas você não achou nenhuma árvore nas revistas? Replicou ela.
- Achei professora!
- Mas por que não recorta e cola a árvore que você achou na revista?
- Porque eu não sei onde fica a árvore da revista. E a minha árvore, a árvore que eu vou desenhar, está plantada lá no quintal da minha casa!

Hoje eu fiz um Plágio

Hoje estou aqui porque eu plagiei. Plagiei uma linda “Love Story” de um "momento Love Story".
Li o relato de alguém que ouviu o relato de uma menina que ama muito um lindo garoto. Lindo momento. Dava pra ver e sentir o turbilhão de emoções, o tamanho do sentimento, a pureza do momento, a intensidade da paixão, do tempo, do remorso, de coisas não ditas, coisas a dizer, coisas a fazer, coisas a esquecer. Mãos trêmulas. Mochila nos ombros e celular em punho. Borboletas saindo do estômago. Linhas. Entre linhas. Ah! Essas mal traçadas linhas...
Tinha, também, veja só, um garoto contando a sua “Love Story”. Um que amava. Que amou. Que ama e que amará. Que depois de tanto tempo, ainda tem falta de ar quando vê seu amor, que ainda sente o cheiro dela na multidão. Que ainda faz planos, que ainda espera. Que ainda acredita. Que ainda tem orgulho de dizer "amei uma vez só". Que ainda acha que ela é o resto que lhe faltava. E que em outras mal traçadas linhas ouviu:
"E nossa história não estará, pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar...”
E plagiando totalmente o garoto dela, (desta vez não foi eu quem plagiou) chego às linhas finais com uma frase que depois de tanto tempo ainda faz a grande diferença na vida de meninas e meninos como estes que não conheci:
"Sem saber de que maneira isso tudo vai acabar, sem saber ao menos se isso que nasceu vai mesmo morrer, só posso me convencer de que a falta que eu venha, talvez, sentir de ti já dói”.
Pobre menina! Pobre garoto! A dois passos da felicidade. A mil quilômetros de uma palavra que pudesse unir dois corações!
Dois corações que ainda esperam um tal de final feliz.

Como Termina é o que Importa

Lembro-me quando pela primeira vez pisei em um campo de futebol "de verdade". Todos os dias eu passava em frente ao "campão" (era como o chamávamos), e ficava pensando em como seria glorioso marcar um gol em uma trave tão grande.
Naquele tempo, costumávamos jogar futebol em campos improvisados em terrenos baldios. Fazíamos um mutirão de limpeza, tirávamos o mato e buscávamos serragem para espalhar pelo campo. Por isso sonhava em jogar em um campo com grama e de tamanho oficial.
Então nosso professor de Educação Física marcou uma partida no "campão" contra uma turma de outra escola. Éramos os visitantes e tínhamos o dever de derrotá-los, e tinha que ser uma goleada.
Nosso goleiro fez uma grande defesa, e passou a bola pra mim. Estava do outro lado do campo o meu objetivo. Olhei fixamente para o goleiro adversário e pensei:
- Olha só o tamanho dele perto daquela enorme trave. Vai ser moleza!
Corri desde o fundo do nosso campo, controlando a bola e driblando os adversários, até chegar bem pertinho da marca de pênalti. Olhei para o canto esquerdo e chutei.
- Pra fora!
Não acreditei no que aconteceu. Eu estava diante daquela trave enorme e consegui fazer o mais difícil: deixei pra trás um time inteiro, driblei até o goleiro e chutei pra fora.
O jogo terminou empatado. Zero a zero. Mas eu levava comigo uma lição aprendida: "Não são importantes as dificuldades vencidas pelo caminho, mas como termina é o que importa".
Quando chegamos na sala de aula o professor nos parabenizou pela disciplina e educação em campo e avisou:
- Semana que vem jogamos de novo...

Sucesso

Sonhou que corria. Corria em direção à meta final. Queria simplesmente chegar.
Não olhava pra trás: esqueceu-se de que havia adversários.
Não percebia os obstáculos: vencia-os!
Não sentia o cansaço: a dor o impulsionava.
Um passo forte puxava o outro, mais forte ainda.
Viu-se diante de uma subida íngreme, diminuiu o compasso, sentiu-se fraco.
Ouviu alguém da platéia o animar: faltava pouco para completar o seu objetivo.
Acordou quando estava a dois passos da marca de chegada. Mas acordou entre os medalhistas. Acordou no lugar mais alto do podium.

Conversa pra Boi Dormir

Ouvi dizer por aí que o tempo das vacas gordas passou. 
Mas para alguns quanto mais se ordenha a vaca, maior é a teta. 
Porque bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. 
Enquanto bezerro enjeitado nem cheira teta.
Melhor acreditar que a vida é como vaca tambeira que esconde o melhor leite.
Eu até pensei em mudar os bois de pasto, mas dizem que boi, na terra alheia, até as vacas lhe dão chifradas. E que boi irado, na terra dos outros, é bezerra.
Eu quero ver é pegar os bois pelos chifres.
Mais fácil é levar as vacas primeiro, pois aonde a vaca vai, o boi vai atrás.
A essa altura do campeonato, não sei se acabo com as vacas ou se ponho fogo no pasto, mas o que quero é o fim dos carrapatos.
No entanto, não se deve botar o carro adiante dos bois.
Porque carro de boi pesado é que canta.
E depois, boi velhaco conhece o outro pelo berro.
Mas acho que tudo isso é conversa pra boi dormir.
Na verdade a vaca foi pro brejo!
Afinal, tropeiro fala de burro, boiadeiro de boi, moça de namorado e velho do que já foi.

Feliz Vida Nova

Agora é uma boa hora para desejar Feliz Natal. Pois assim poderíamos planejar bem melhor o nosso próximo Natal.
Poderíamos durante esse novo ano, rever as pessoas que no ano passado somente vimos no Natal. Poderíamos passar mais tempo com aquelas que estando próximas, estiveram distante. Poderíamos entender um pouco melhor, aquelas que nos entenderam tão bem. E poderíamos amar bem mais aquelas que nos amaram também.
Agora é a melhor hora para desejar um Feliz Ano Novo. Melhor hora pra ver que o ano mal começou e agimos como se já tivesse acabando. Melhor hora para perceber que tudo é tão simples e tão maravilhoso quanto aquele segundo da virada que comemoramos tão magnificamente. Melhor hora para abraçarmos nossos queridos e amados amigos e familiares. Para abraçarmos nossos sonhos e lutarmos por eles. Então daqui a 365 dias veremos que cada dia é tão importante quanto o dia do Natal e o dia da virada de ano. E que mais importante são as pessoas que nos trouxeram paz, felicidade e amor durante mais um ano de nossas vidas. E espero que no final deste ano, eu possa estar incluído na sua lista.


Feliz Natal e um Feliz Ano Novo!


Feliz Natal 2019 e um Feliz 2020!

Iluminado

Descendo a Serra do Leão tem-se uma bela vista da minha cidade natal. Por um ano inteiro voltava do trabalho, à noite, e deslumbrava somente as luzes que iam apagando-se com o tic-tac dos ponteiros. 
Cheguei a repetir em voz alta algumas vezes, mas todos os dias meu coração dizia: “Eu só quero “uma” daquelas muitas lâmpadas”. Não compartilhava com mais ninguém aquele momento de sentimentos profundos, pois a leitura que faziam das minhas palavras era que eu estava cansado, querendo apagar a lâmpada do meu quarto. Mas minhas palavras estavam lembrando-me de que mesmo que houvesse muitas lâmpadas acesas, eu queria ser iluminado por apenas uma única luz. 
A noite estava caindo, e eu sabia que iria sentir a sua falta. Sentir a falta do teu sorriso, do teu toque. Iria precisar do teu calor, do calor da tua respiração. Iria precisar... do reflexo da luz da tua lâmpada... que brilha, no espelho dos seus olhos e ilumina o meu coração.

Capaiz Lôco Véio

Já hoje, dei um pulo na loja tirá uma tv, e quando apiei do piedade, me arrepresenta que vi um loque virado no guedes, atorando pela praça lá pra diante da prefeitura, intuiado de coisa. Tava com um tubão debaixo do braço, comendo pipoteca e com uma setra dependurada no pescoço.
Mais tarde dei uma vortiada pela cidade e encontrei o caipora rabiando de bêbado. Tava mais firme que palanque em banhado.
Quando o nego véio foi cruzá a rua veio um fuque muito que devagar e o tongo do bêbado resolve pará de cróque na frente do carro, que freiô meio decumforça. Isso pra não dá uma borduada no animár de teta.
Daí o motorista meteu a cara pra fora da janela e gritô:
- Desulivre! Se mexa molóide!
Mais que depressa o andante se avalentô e respondeu:
- Erde, não tá vendo nuvê! Passe meio de fianco que cabe essa jóssa. E se apure porque se ficá se ensebando já vamo prô tapa.
- Já pra lá jaguara! Respondeu o motorista, dando risada dos tombo do vivente, que não gostô muito e resolveu botá banca de macho:
- Feche a cara piá, que que tá se abrindo?
- Mais é um disgranhento. Se você acha que dá... Pregue fogo!
- Pare de atiçá, porque depois você pica a mula.
- Então se finja de loco e se pinche ne mim. Já te dô uma camassada de pau.
Os dois ficaram se ralhando pra mais de metro, tipo jacú rabudo.
Até que o bebum se envaretô, deu um trupicão, resbalô na chinela e bateu cas idéia na tórda do fuque. Caiu dum jeito que chego a rasga a japona. Sem fala do táio na testa.
Meio que arremedando o pidonchero do bebum, o motorista tirou um sarro:
- Caiu? Foi Pialo! Se espixá é capaiz que dê na artura...
No que o jaguara se deu conta do estrago respondeu:
- Tô que é só a capa da gaita! 
- Crêênndios! Tá tudo esgualepado!
Nessa hora os dois se olharam bem de perto e se reconheceram.
Calcule, loco! O caboco era cumpadi do motorista.
Há de... Capaiz? Mas que djanho. São uns bocó mesmo. 
Voltimeia acontece duns quéra tirá o zóio da estrada e passá por cima duns guaipequinha, mas dois cumpadi se pegá no tapa e ficá enxendo linguiça no meio da estrada é jóia de se vê.
O vivente já tava azur de bêbado e agora ficô vermeio de tanto sangue que verteu.
Quando o motorista viu aquela sanguera, se desesperô e começô a gritar:
- Quedele? Quedele?
Pegô o kit de primeiros socorros e fez uma gambiarra, pra pará o sangramento, que ficô um chachicho.
Loco do céu! Tudo eles entraram no fuca e sumiram pro postinho.
Saíram que saíram deitando o cabelo! Até que um deu com a mão e gritou: Um abraço pro gaiteiro!
Só restô os comentário do povo que tava ali de curioso: 
- Eta piá veio, mas que tar isso daí. Os dois era cumpadi. 
- CAPAIZ, Lôco véio... Só pode ser dolangue. Larguei os betes.
- Puiz óia! ÁÁÁÁÁH DE SERRRR!